A alegoria da caverna na atualidade.

 

 

Platão discorre sobre a Alegoria da Caverna no capítulo 7 de seu livro A República. O mito é amplamente conhecido e estudado. Mas é preciso dizer do que se trata, ao menos sucintamente. Diz que no interior de uma caverna há homens acorrentados e de costas para a saída. Impedidos de movimentar-se viam apenas as sombras que eram projetadas na parede, no lado interno. Uma fogueira, no lado externo, projetava para o interior, sombras de pessoas e animais que passavam na frente da caverna. Os prisioneiros acreditavam que as sombras dos objetos eram os próprios objetos, e não apenas sombras deles.

Muito bem. Percebe-se nos dias atuais que grande parte da população está vendo apenas sombras, que acreditam ser a realidade. Compram o discurso e propaganda de combate a corrupção como se isto fosse o real, e na verdade são apenas vultos. O povo precisa aprender a ler as entrelinhas, a discernir a motivação que embasa um discurso.

O discurso da moralidade não passa de névoa porque nem sombra é. Fundamentam a fala na moralidade, mas o objetivo era e é a tomada do poder. Cientes que não conseguiriam o poder através das urnas, vide 4 derrotas consecutivas, resolveram discursar o que o povo queria ouvir. E conseguiram. Corruptos discursando que acabariam com a corrupção. O povo acreditou.

O modus operandi que utilizam para construir um país ético nada tem de ético, ao contrário, eles atropelam a lei e o “réu” é condenado antes do julgamento, e o que é pior, sem provas. Sempre ouvi dizer que na ausência de provas o benefício deve ser dado ao “réu”. Mas não é o que acontece na república das bananas, digo, do Brasil. Basta elaborar um discurso lógico e adorná-lo com propaganda a exaustão, que a maior parte da população acredita. Acredita porque desconhece uma fala da filosofia cética que diz que é possível produzir um discurso forte e com capacidade de persuasão, a favor ou contra qualquer coisa. Dito isto, o leitor pode imaginar o valor de provas materiais e irrefutáveis em um julgamento. Igualmente pode imaginar o valor da declaração de uma ministra do STF que ao proferir seu voto, no julgamento do mensalão, disse que mesmo não tendo sido apresentado provas, ela votaria embasada na literatura jurídica.

Recentemente, anularam mais de 54 milhões e 500 mil votos sem uma prova sequer de que a Ex-Presidenta Dilma fosse culpada ou corrupta. As tais “pedaladas” também foram feitas por FHC, por Lula e por 17 governadores que estão exercendo seus mandatos, e não há nenhum questionamento das “pedaladas” destes. Parece que ao invés de construir um país ético, estamos construindo um país de cínicos, de sarcásticos indiferentes à legalidade, contanto que consigam seus objetivos. Esquecem que pau que bate em Chico também bate em Francisco.

Discursam querer levar o país para a modernidade, quando são a causa do atraso do país.  Falam querer distribuir as riquezas, quando na verdade querem é preservar seus privilégios. Seus atos os contradizem e fica explicito que o resultado de suas ações será maior concentração de renda. Representam o que tem de mais arcaico, mais retrógrado nos trópicos. A parcela dos brasileiros que aplaude e enxerga sombras, não consegue visualizar que o mais prejudicado é o povo, ou seja, eles mesmos. Aplaudem e ovacionam aqueles que vão lhes chicotear, aqueles que vão lhes retirar direitos. Vai entender este apego a corrente. Difícil. Será que é tão difícil para a sociedade enxergar e compreender que só vamos nos desenvolver enquanto nação através da inclusão dos excluídos? São milhões de pessoas. Número maior que a população de muitos países juntos. Milhões de consumidores que ficam a margem e a deriva por causa da ganância de alguns que acreditam serem donos do país.

É muito difícil entender que para construir uma sociedade ética é preciso respeitar as leis? Faz-se necessário que as leis sejam iguais para todos, e não só para um campo ideológico. Ganhar o “jogo” embasado em discurso tendencioso e muita propaganda é igual a ganhar uma partida de futebol com gol ilegítimo, roubado, ou seja, não se constrói uma nação ética valendo-se de artifícios antiéticos, ao contrário, apenas reforça-se a ideia de que vale tudo para impor uma visão de sociedade. Vale tudo para alcançar os seus objetivos, em outros termos, o comportamento corrupto é afirmado e legitimado.

“(…) tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se a alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo? (…)” (Platão, A República. Pág.228).

Na Alegoria da Caverna, Platão diz que se um dos prisioneiros conseguisse soltar-se das correntes e após adaptar-se com a iluminação externa iria ver os objetos tais como eles são. Acaso retornasse para contar a verdade aos demais que ficaram acorrentados, estes não acreditariam e tentariam matá-lo. Basta estabelecer uma analogia da citação acima com o momento atual, para perceber a veracidade da fala de Platão. Tudo se explicita. Como diz aquele ditado popular antigo do tempo que as mulheres se maquiavam com “pó de arroz”: “não é pó de arroz, mas está na cara”. Basta o prezado leitor olhar para a atualidade e ver trabalhadores lutando contra seus direitos. Acaso não é repetido à exaustão o bordão de que política não vale a pena, quando na verdade “veem” seus destinos decididos pelos políticos. Fazem isto não porque sejam burros, mas porque apenas veem sombras e acreditam ser o real. E quando aqueles que conseguem ler as entrelinhas lhes mostram o objeto real, eles não ficam furiosos? Não enchem o peito de raiva e saem semeando ódio? Quer arrumar um inimigo? Mostre para alguém que sua interpretação está errada.

Há muito tempo que uma parcela da sociedade alerta que o objetivo não era o combate a corrupção. Hoje isto está comprovado. É só olhar no atual governo, quantos ministros fichas sujas tem. É só observar que os partidos que estão no poder atualmente, DEM, PMDB e PSDB, foram classificados em primeiro, segundo e terceiro lugar no ranking da corrupção divulgado pelo TSE em 2016. É mole? Ranking de corrupção!  É caro leitor, aqueles que pregam discurso ético são os que lideram o ranking.  E então emerge a pergunta: está ou não grande parcela da população a ver sombras e a acreditar que aquilo que vê são objetos reais?

Também se alertou fartamente que o objetivo em relação à Petrobrás não era saná-la e sim vender o pré-sal. Havia um projeto em que 75% dos recursos oriundos do pré-sal iriam para a educação e 25% à área da saúde. Seria o “pulo do gato” para que nossa sociedade tivesse mais qualidade de vida. Precisa dizer de que lado a parcela da sociedade que só vê sombras, e que seria beneficiada, ficou? Agora que estão a testemunhar a venda do pré-sal para as grandes petrolíferas mundiais, talvez percebam que o alerta era verídico.

Estamos diante de um embuste em que o saque da hora é a reforma do ensino público por meia dúzia de burocratas. Reforma feita sem discussão alguma com a sociedade e os educadores. Resolveram retirar das grades Filosofia, Sociologia e outras matérias do âmbito das Ciências Humanas. Engraçado, estão retirando a disciplina que ensina a pensar metodicamente, a ter uma visão crítica da sociedade e também a disciplina que mostra como a sociedade é constituída, como é formada e quais são suas tensões. Fazem isto para colocar mais matérias técnicas, ou seja, querem mais robôs para apertar parafusos, vide Tempos Modernos de Chaplin, e menos cidadãos pensantes capazes de construir uma nação livre e independente. Advinha de que lado aqueles que somente veem sombras vão se postar? Uma bala de caramelo para quem acertar. Em suma, a Alegoria da Caverna está atualíssima nos trópicos, 2500 anos depois de ser escrita.

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