O som da flauta.

 

 

Melissa ouviu um som de flauta agradável que parecia mágico. A música mexia com ela e despertava sentimentos adormecidos. Repentinamente percebeu que nos últimos tempos  visou  somente o lado profissional, com pensamento fixo em dinheiro. Parece que esquecera que era humana. Esquecera o valor da solidariedade, do amor e da amizade. Coisas simples do dia a dia que dão sentido à vida.

O som vinha das redondezas de sua residência, porém não conseguia identificar exatamente de onde. A agradável musica a excitava no sentido figurado e no sentido literal. Uma excitação plural que provocou nela reflexão sobre diversos aspectos do viver. O som a retirou da rotina mecanizada e repetitiva e a impregnou de um sentimento intenso de vida. Pensou: “não consigo ficar parada, preciso caminhar”.

Largou a calculadora que estava usando para planejar seus gastos. Abriu a porta da casa e saiu, logo alcançando a rua. Não escolheu caminho e seguiu pelas ruas que sua intuição a indicava. Após alguns minutos de caminhada chegou a uma avenida de tráfego intenso. Observou as pessoas atravessando a rua correndo em meio aos carros que trafegavam em velocidade incompatível para o lugar. “Pra que tanta pressa?”, pensou. Ia pedir uma água de coco para um ambulante quando viu uma senhora octogenária parada à margem da avenida, esperando para atravessar. Rapidamente dirigiu-se até a senhora e ofereceu ajuda. Segurou a idosa pela mão e fizeram a travessia. A boa ação provocou um sentimento de bem-estar em Melissa.

Entrou à direita da rua em que estava e continuou caminhando. Sentia-se bem em estar circundada por pessoas. Alguém lhe acenou com a mão de longe e ela respondeu. Inicialmente não reconheceu a mulher que acenou e então pensou: “Deve ser do curso de inglês ou seria da faculdade de contabilidade? Que diferença faz se é do curso ou da faculdade, tanto faz”. Enquanto caminhava imersa em seus pensamentos passou por um homem que lhe acenou com a cabeça sorrindo afetivamente. Melissa percebeu o interesse do homem e isto lhe fez bem. O flerte fez sentir-se mulher bela e desejável. Tudo parecia melhorar.

O som da flauta não saia de sua cabeça. Já não o ouvia mais porque estava distante de sua casa, porém a música ficou gravada em sua mente, de modo que ela usufruía a aprazível música. Passou em frente a uma creche e lembrou a promessa que fizera a diretora de ministrar uma aula semanal de língua estrangeira para as crianças. “Falarei com Giovana esta semana e retomaremos este projeto. Vai ser bom porque as crianças na tenra idade aprendem com mais facilidade”.

A mente estava ativa e vinha um pensamento atrás do outro. Pensamentos que lhe mostravam que precisava retomar as atividades que havia relegado ao priorizar o lado profissional. “Sempre o dinheiro”, pensou. Disse para si mesma que viajaria, iria ao teatro, visitaria amigos e amigas e também sairia para dançar. Entre os pensamentos um a deixou triste. Lembrou que estava só, sem um amor. Disse para si que não queria somente companhia, queria um amor ou como dizia a música: “um homem para chamar de seu”. Enquanto viajava em seus pensamentos avistou um parque. Dirigiu-se ao parque para descansar um pouco e respirar ar puro, ver pessoas.

Entrou no parque e a música novamente toma o centro de sua atenção. Sorriu

Com satisfação pensando que a música que ouvia vinha de sua mente, porém quanto mais adentra o parque mais o som da música torna-se alto e real. Pensou: “Isto não é imaginação, este som é real”. Saiu da pista de caminhada e começou a andar por entre as árvores seguindo o som da música e um questionamento veio a sua mente: “Como posso estar ouvindo o som desta flauta estando tão longe de casa? Não há dúvida que é a mesma música”. Matutou um bocado, não encontrou explicação e disse para si: “Para que racionalizar tudo. Tem coisas que não tem explicação”. Mais alguns minutos de caminhada e chegou próxima de uma árvore de onde vinha o som mágico. Olhou atrás da árvore viu um homem belo sentado e tocando a flauta. O homem sorriu para ela. Melissa retribuiu o sorriso. Sentiu um frio na barriga, o coração bater mais rápido e seu peito ficar leve.  Viu um brilho nos olhos do homem que se conectou com o brilho nos seus olhos. Neste momento, feliz da vida, lembrou um trecho da música cantada por Zizi Possi, que diz: “É só bater na porta e entrar/ que nunca chove sem molhar/ bem que eu disse pra você que o amor vem pra cada um”.

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A Previsão.

 

Um cão pequinês com pelo na cor marrom jaz morto na calçada, em frente da casa, próximo ao Jardim. Margarita sai do interior de sua casa para  fazer compras e vê o cão morto.  Fica triste e abaixa-se para acariciar o animal morto. Chora a perda do amigo. Inicialmente chora baixo, mas a tristeza aumenta e começa a chorar copiosamente.

Ubaldo ouve o som do choro de sua mulher. Estranha, porque não havia ouvido o som do motor carro e Margarita lhe dissera que iria fazer compras. Caminha rapidamente para ver o que está acontecendo. Vê a sua querida agachada e derramando lágrimas em frente ao cão. “O que houve mulher?”, pergunta. Ela responde: “Lulu morreu. Não sei o que houve. Ele estava bem de saúde”.

Ubaldo agacha-se e abraça a mulher para consolá-la e diz: “Essas coisas acontecem. Para morrer, basta estar vivo. Sei que gostava muito de Lulu, mas vamos conseguir outro cãozinho para você”. A mulher responde que Lulu é insubstituível, continua a chorar e não há nada que a console.

Enquanto estão agachados e sua esposa chora a perda do cão, passam duas mulheres em frente da casa. Com sorriso irônico as duas observam a cena. A mulher mais velha cochicha no ouvido da mulher mais jovem e bela, e sorriem. Ubaldo parece adivinhar o que ela está cochichando. Margarita estranha o fato e diz a Ubaldo: “Quanta maldade dessas mulheres. Sorrir da morte do animal e ainda cochichar, fazendo piadas”. Ubaldo para desconversar pede que a mulher ignore a situação e procure recompor-se. Diz para a esposa que vai buscar um saco plástico para embalar o cão. “Vamos retirá-lo do sol para evitar que cheire mal enquanto a prefeitura não vem buscar o animal”.

Enquanto vai buscar o saco plástico Ubaldo pensa: “Não é que a velha estava certa. Aquele sorriso irônico revela tudo”.

O leitor deve estar pensando que Ubaldo está louco, mas garanto que não. Vou já esclarecer a situação. A velha era uma cartomante que Ubaldo havia ido visitar junto com a mulher bela e jovem, que foi amante de Ubaldo durante dois anos. A amante havia jurado a Ubaldo que iria vingar-se por ele terminar o relacionamento. Dissera que não ficaria barato o fato de ele voltar à esposa e abandoná-la ao léu. Ela o amava. Quanto a cartomante, esta havia “visto” no tarô que a mulher de Ubaldo iria sofrer ao ver morrer o ser que ela mais amava. Um sentimento de alívio encheu o peito de Ubaldo. Nos últimos tempos ele sofreu e esteve nervoso e tenso pensando que ia morrer, porque imaginava que fosse ele o ser que a mulher mais amava.  “Quanto sofrimento à toa”, pensou.