Breve Retrospectiva 2017 sob o olhar de um trabalhador.

Todo fim de ano surgem diversas retrospectivas. Há os melhores do ano, do esporte, das artes, personalidades influentes, desastres naturais e por aí afora. Mas nunca vi uma retrospectiva do ponto de vista do trabalhador. Resolvi fazer uma. Mas não tenho a intenção de solucionar tal situação, e por esta razão atrevo-me a dizer que é uma breve retrospectiva.

O ano foi recheado de emoções para os trabalhadores, e a tônica foi a transferência de renda dos muitos que pouco possuem para os poucos que possuem muito.  A Reforma Trabalhista provocou comoção na classe trabalhadora. Com o pretexto de flexibilizar as relações trabalho-capital introduziram mudanças. Por exemplo, instituíram o Negociado sobre o legislado que explicita que aquilo que for negociado entre patrões e sindicatos prevalece sobre a legislação. Poucas categorias profissionais possuem sindicato bem estruturado e com poder de negociação. A maioria possui sindicatos fracos e algumas categorias possuem sindicatos de direita, digo, de “resultados”. É oportuno lembrar que há muito pelego no meio sindical, o que torna o Negociado sobre o legislado ainda mais perigoso para os assalariados. A CLT garantia a não redução de direitos, agora nem isso.  Outra mudança é que o trabalhador poderá ser contratado como autônomo e pago por hora trabalhada. Nesta categoria, mesmo que trabalhe exclusivamente e de forma contínua para uma empresa, tal fato não caracterizará vinculo empregatício. Após a reforma, quando for demitido o trabalhador não precisará do Sindicato para assinar sua rescisão de trabalho. Nesta situação, emerge a mente os trabalhadores humildes com pouco conhecimento de leis trabalhistas e de matemática. Saberão eles fazer as contas e verificar se as suas frações estão corretas? Férias poderão ser parceladas em três vezes. Os patrões e o governo afirmaram que a reforma é boa para os trabalhadores, embora a maioria absoluta dos assalariados pense o contrário.  Não é hilário eles acharem que sabem melhor do que a gente aquilo que é bom para nós?  A Reforma Trabalhista tem uma centena de emoções, mas paro por aqui senão a breve retrospectiva ficará somente nela.

Outro fato que emocionou o trabalhador foi a redução de salários. Reformas Fiscais, igual a implantada em Curitiba, reduziram os salários e direitos dos trabalhadores. Aqueles que protestaram contra e tentaram impedi-las, tiveram seus corpos acariciados por porradas, cacetadas e bombas sobre suas cabeças. Desfrutaram fartamente do gás de pimenta.  Falando em repressão, este foi o argumento usado contra os protestos de assalariados que ousaram lutar contra a perda de seus direitos. Estamos em uma democracia? Cito Curitiba, mas este expediente foi utilizado por outras cidades e estados. Em algumas localidades os trabalhadores além de engolir o rebaixamento do valor de seus proventos, engoliram o não pagamento de seus salários.  Em entrevista a uma rede local de televisão, o prefeito de Curitiba disse que aumentou a passagem, a mais cara do Brasil, para formar um Fundo Municipal para comprar novos ônibus. Evidencia-se uma transferência de renda do pobre para o rico. Não são os empresários do transporte que tem a obrigação de comprar ônibus novos?

Em 2017, mais uma vez os trabalhadores tiveram a oportunidade de financiar os patrões.  Através do programa Ponte para o Futuro, dos mais abastados, o assalariado viu ações governamentais que lhe retiram a esperança, transferem renda e garantem mais desemprego. Por exemplo, o corte e congelamento dos investimentos por 20 anos. Menor investimento provoca menor produção, esta por sua vez retira postos de trabalhos. Menos pessoas trabalhando implica em menor consumo das famílias que implicará em menor produção e mais fechamento dos postos de trabalho. O governo abriu mão do circulo virtuoso para implantar o circulo vicioso. Inclusive, o ano fecha com aumento no índice que mede o desemprego.

Alguns milhões de trabalhadores tiveram direito de receber um dinheiro do FGTS por conta de correção em contas inativas. Tal situação que para um olhar apressado pode parecer boa, foi na verdade mais uma transferência de renda dos humildes para os mais abastados. O dinheiro recebido do FGTS deixou de ser poupança porque não foi utilizado para investimentos, e sim para pagar dívidas e comprar bens e produtos que há muito os trabalhadores necessitavam, ou seja, o dinheiro saiu do bolso dos trabalhadores e foi para o dos patrões.

A Reforma da Previdência mexeu com os sentimentos dos trabalhadores e continuará a mexer em 2018, uma vez que sua votação ficou para este ano. O desgoverno Temer afirma que a previdência está quebrada e é preciso reformá-la. Disse que o trabalhador vive em média 80 anos e que em breve estará vivendo 140, parece profecia, e não será possível pagar aposentadorias.  Especialistas em direito previdenciário afirmam que a Previdência é superavitária. O governo diz que é blá blá blá. CPI do Senado aponta que empresas privadas devem mais de R$ 520 bilhões à previdência. O governo não fez gesto para cobrar estas dívidas, ao contrário, perdoou R$ 25 bilhões do Banco Itaú que generosamente cedeu seu Economista chefe Ilan Goldfajn para presidir o Banco Central. R$ 25 bilhões é gorjeta se comparado a R$ 1 trilhão em isenção de impostos concedidos para petrolíferas estrangeiras. Percebe que somente para os assalariados não há dinheiro?

Os trabalhadores evangélicos emocionaram-se com o voto de seus pastores favoráveis a  reforma trabalhista. Não só na reforma, mas em qualquer projeto envolvendo a relação capital-trabalho votaram contra seus fiéis, digo, contra os trabalhadores.  Tenho a impressão que não apreenderam o ensinamento do Mestre Jesus que nunca deixou de expressar  sua opção  pelos pobres. Ao contrário do Mestre, os deputados pastores sempre optaram pelos mais ricos, mas não tem problema porque este ano eles serão reeleitos.  Os pastores são membros da bancada BBB como são chamados os deputados que fazem parte das bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia. Juntos somam 73% do total de deputados, ou seja, aprovam o que quiserem na Câmara Federal. Tal fato nos concede a oportunidade de ver mais uma vez os deputados pastores contrários à mensagem de Cristo, ignorando os pobres e posicionando-se ao lado dos ricos e dos violentos.

Houve sentimentos e espetáculos que foram negados ao trabalhador. Não se viu este ano aquelas manifestações gigantescas com pessoas vestidas com a camisa da CBF, desfilando atrás de um enorme pato amarelo de borracha e com transmissão ao vivo para toda a nação. Igualmente, não se ouviu o som das batidas de panelas. Não se sabe se os manifestantes estão contentes com a atual situação ou não foram para as ruas porque a maior rede de televisão, Sua Majestade, não fez convocação. Fomos privados de danças com coreografias e de mulheres nuas querendo aparecer, digo, querendo protestar.

A maioria dos trabalhadores não gostou dos sentimentos que lhe foram proporcionados, mas teve trabalhador que gostou e comemorou a deflação. Creio que desconheça que deflação é um sinal de que a economia estagnou. Nada mexe na convicção dos trabalhadores de direita. Têm fé inabalável no capital e posicionam-se contra os trabalhadores. Os vejo como ovelhas que defendem os direitos dos lobos.

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