O judiciário e a realeza.

O Judiciário e a realeza.

 

 

Quem pensa que a Realeza no Brasil foi extinta com a proclamação da república, engana-se. Na verdade, ela multiplicou-se e os inúmeros membros da corte imperial, atualmente, são os membros do judiciário brasileiro. Observe o comportamento, benesses, regalias e chegará à conclusão que herdaram os direitos que eram concedidos à monarquia. Não são Alices, mas vivem no mundo das maravilhas.

É preciso que um paralelo entre o judiciário e a monarquia tenha como parâmetro a monarquia medieval, que era absoluta e descendente dos deuses. Não dá para comparar com as monarquias atuais que são apenas fruto da cultura de alguns países, decorativas e com pequeno poder.

“Nosso” judiciário é absoluto. Podem tudo e ninguém pode nada contra eles. Podem grampear Presidente da República, condenar sem provas. Fazer militância política nas redes sociais, e num instante de folga correr ao tribunal e expedir liminar contra políticos que eles detonam nas redes sociais. Foi o caso do juiz que militava contra Lula e em três minutos expediu uma liminar impedindo-o de exercer o cargo de ministro. O Judiciário brasileiro lembra-me Kafka e sua obra maravilhosa O Processo. Recomendo leitura.

O estilo de vida luxuoso e nababesco aproxima os juízes da realeza. Recebem benefícios “reais” que a maioria do povo ficaria contente se um valor desses penduricalhos correspondesse ao seu salário mensal. Comecemos pelo famoso auxílio-moradia que é de R$ 4.377,00 e até juiz que tem casa própria recebe. Os juízes, proprietários de imóveis nas localidades em que trabalham, afirmam que requereram o princípio da isonomia, se um juiz recebe o outro pode receber. Porque não aplicaram o princípio de isonomia na propriedade ou não de imóvel na localidade em que trabalham? Não são tolos, e se utilizassem este parâmetro não teriam direito. Simples assim. Penso que nem o juiz que não tem imóvel onde trabalha deveria receber tal penduricalho, porque seu salário é alto e suficiente para pagar um aluguel ou adquirir um imóvel.

Alguns estados pagam auxílio educação no valor de R$ 7.000,00 aos juízes, mensalmente, para custear os estudos dos filhos até a idade de 24 anos. O filho do cidadão comum não tem este “direito” e adquire a maioridade aos 18 anos. Filho de juiz tem a benesse e figura como dependente do papai “estado” até os 24 anos. Os juízes inventaram uma classe social, a deles, que tem acesso a tudo no país e arrumaram um jeitinho brasileiro de perpetuar esta casta, digo, classe. Um trabalhador humilde que recebe salário mínimo não consegue igualar a soma de seus salários de sete meses com um auxílio-educação, de um filho, que um juiz recebe mensalmente. É… O auxílio educação é recebido por filho que esteja estudando. Quer mais?

Podem processar qualquer cidadão, mas não podem ser processados. Quando pegos em flagrante delito em suas funções são punidos com aposentaria precoce e mantêm o salário e regalias, ou seja, continuam com o padrão de vida suntuoso, só não precisam trabalhar. Isto é punição para quem erra? Férias para os juízes são de 60 dias. Diferente da sua, trabalhador comum, que é de 30 dias e pode ser parcelada em três vezes. Eles podem tudo. Suas decisões são imperativas. Não há como deixar de ver que os membros do judiciário herdaram os direitos dos extintos monarcas. Ocuparam o espaço vazio?

É preciso reconhecer que os juízes conhecem as leis a fundo. Tanto conhecem que conseguem fazer que seus salários de dezenas e centenas de milhares de reais ultrapassem o teto constitucional determinado pela lei, e continuem legais. Quer prova maior de conhecimento jurídico? Caro leitor, não é “real” e “majestosa” a vida que os membros do “nosso” judiciário desfrutam?

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A “vitória” dos derrotados.

A “vitória” dos derrotados.

 

Aqueles que foram derrotados quatro vezes consecutivas nas urnas encontraram uma maneira de vencer. Deram um nó em pingo de água e desprezaram a vontade do povo. Sapatearam em cima de 54 milhões de votos. Após perderem nas regras por eles estabelecidas, a eleição da democracia burguesa, utilizaram de artimanhas para aplicar um golpe branco e retirar a Presidenta eleita pelo povo para fazer as “mudanças” que julgam necessário. Tais mudanças jamais seriam aprovadas pelo povo em eleição ou plebiscito, daí a necessidade do golpe.

Por derrotados nomeio aqueles que não votaram na Presidenta Dilma Rousseff. O leque é variado e compõe-se de trabalhadores de direita, pequenos burgueses. Pessoas com grande influência na sociedade tais como juízes, grandes empresários, proprietários e jornalistas da grande mídia, que está na mão de seis famílias. Passa pela maçonaria, grupelhos fascistas e neonazistas. Adicione a este rol os deputados federais que não possuem currículo, mas ficha corrida.

Com o slogan de combate a corrupção eles unificaram o discurso para impor uma narrativa que desse uma aparência de legalidade ao golpe. A vitória deles foi tão horrível que se fizéssemos uma analogia com uma partida de futebol vencida na mão grande, diríamos que eles venceram com um gol impedido e feito com as mãos.

As forças ocultas, citadas por Jânio Quadros no passado, desvelaram-se e não tiveram pudor de utilizar  meios sórdidos para obterem seus intentos. Jogaram sujo na cara dura. Montaram o circo e sobrou para o povo fazer o papel do palhaço. Os líderes dos derrotados conseguiram fazer multidões desfilar atrás de um enorme pato amarelo de borracha jurando que não pagariam o pato, mas pagaram pato e mico. Continuam pagando ao ter seus direitos retirados e vendo políticas públicas que transferem parte de suas minguadas rendas para os mais abastados da nação.

 

A grande mídia fez e faz o papel da ala de frente ecoando o discurso daqueles que fazem os trabalhos de bastidores, são eles os políticos de direita, os intelectuais de direita e grande parte do judiciário. Um fala e outro amplifica o discurso unificado e ritmado, fornecendo aos pequenos burgueses, digo, trabalhadores de direita, material para explicitarem o ódio que sentem do movimento trabalhista, ou seja, lutam contra si e aqueles que lutam pelos seus direitos. Trabalhador de direita é contra sindicatos de trabalhadores, mas não abre mão dos benefícios conseguidos através de árdua luta.

Os derrotados seguem saboreando sua “vitória” ao retirar direitos trabalhistas, diminuir os salários dos trabalhadores e instalar pânico na classe assalariada. Trabalhador assustado é mais fácil de administrar. Pretendem fazer a reforma da previdência no “couro do povo” porque políticos, juízes e militares ficam de fora da reforma previdenciária. Congelaram os investimentos por vinte anos, ato que garante ao povo desemprego e nenhuma perspectiva de melhoria salarial.

A sobremesa desta “vitória” é a tentativa de destruir o já precário sistema educacional que o país possui. Evidenciando o seu desprezo pela nação e pelos trabalhadores, querem impedir o acesso destes a educação. Elegeram a educação como a inimiga. Retiram direitos dos professores, promovem o sucateamento do ensino público através do corte de investimentos e não escondem a intenção de privatizar as universidades federais. Vendem ativos da nação como o pré-sal, inicialmente projetado para ser a garantia de investimentos no sistema educacional. O combate à educação é estratégico e acontece porque ela desperta consciências e remove as escamas dos olhos daqueles que veem, mas não enxergam. Os derrotados “vencedores” andam na contramão da história ao impor suas vontades goela abaixo do povo. O resultado está a nossa vista e é desprezível.

A cereja do bolo é a condenação, sem provas, do ex-presidente Lula. A condenação é necessária para a continuidade do golpe e fragilização dos trabalhadores e movimentos populares. A empreita atual dos “vitoriosos” é impedir que os trabalhadores organizem-se e disputem as próximas eleições, porque temem o grito que vai ecoar das urnas.

Breve Retrospectiva 2017 sob o olhar de um trabalhador.

Todo fim de ano surgem diversas retrospectivas. Há os melhores do ano, do esporte, das artes, personalidades influentes, desastres naturais e por aí afora. Mas nunca vi uma retrospectiva do ponto de vista do trabalhador. Resolvi fazer uma. Mas não tenho a intenção de solucionar tal situação, e por esta razão atrevo-me a dizer que é uma breve retrospectiva.

O ano foi recheado de emoções para os trabalhadores, e a tônica foi a transferência de renda dos muitos que pouco possuem para os poucos que possuem muito.  A Reforma Trabalhista provocou comoção na classe trabalhadora. Com o pretexto de flexibilizar as relações trabalho-capital introduziram mudanças. Por exemplo, instituíram o Negociado sobre o legislado que explicita que aquilo que for negociado entre patrões e sindicatos prevalece sobre a legislação. Poucas categorias profissionais possuem sindicato bem estruturado e com poder de negociação. A maioria possui sindicatos fracos e algumas categorias possuem sindicatos de direita, digo, de “resultados”. É oportuno lembrar que há muito pelego no meio sindical, o que torna o Negociado sobre o legislado ainda mais perigoso para os assalariados. A CLT garantia a não redução de direitos, agora nem isso.  Outra mudança é que o trabalhador poderá ser contratado como autônomo e pago por hora trabalhada. Nesta categoria, mesmo que trabalhe exclusivamente e de forma contínua para uma empresa, tal fato não caracterizará vinculo empregatício. Após a reforma, quando for demitido o trabalhador não precisará do Sindicato para assinar sua rescisão de trabalho. Nesta situação, emerge a mente os trabalhadores humildes com pouco conhecimento de leis trabalhistas e de matemática. Saberão eles fazer as contas e verificar se as suas frações estão corretas? Férias poderão ser parceladas em três vezes. Os patrões e o governo afirmaram que a reforma é boa para os trabalhadores, embora a maioria absoluta dos assalariados pense o contrário.  Não é hilário eles acharem que sabem melhor do que a gente aquilo que é bom para nós?  A Reforma Trabalhista tem uma centena de emoções, mas paro por aqui senão a breve retrospectiva ficará somente nela.

Outro fato que emocionou o trabalhador foi a redução de salários. Reformas Fiscais, igual a implantada em Curitiba, reduziram os salários e direitos dos trabalhadores. Aqueles que protestaram contra e tentaram impedi-las, tiveram seus corpos acariciados por porradas, cacetadas e bombas sobre suas cabeças. Desfrutaram fartamente do gás de pimenta.  Falando em repressão, este foi o argumento usado contra os protestos de assalariados que ousaram lutar contra a perda de seus direitos. Estamos em uma democracia? Cito Curitiba, mas este expediente foi utilizado por outras cidades e estados. Em algumas localidades os trabalhadores além de engolir o rebaixamento do valor de seus proventos, engoliram o não pagamento de seus salários.  Em entrevista a uma rede local de televisão, o prefeito de Curitiba disse que aumentou a passagem, a mais cara do Brasil, para formar um Fundo Municipal para comprar novos ônibus. Evidencia-se uma transferência de renda do pobre para o rico. Não são os empresários do transporte que tem a obrigação de comprar ônibus novos?

Em 2017, mais uma vez os trabalhadores tiveram a oportunidade de financiar os patrões.  Através do programa Ponte para o Futuro, dos mais abastados, o assalariado viu ações governamentais que lhe retiram a esperança, transferem renda e garantem mais desemprego. Por exemplo, o corte e congelamento dos investimentos por 20 anos. Menor investimento provoca menor produção, esta por sua vez retira postos de trabalhos. Menos pessoas trabalhando implica em menor consumo das famílias que implicará em menor produção e mais fechamento dos postos de trabalho. O governo abriu mão do circulo virtuoso para implantar o circulo vicioso. Inclusive, o ano fecha com aumento no índice que mede o desemprego.

Alguns milhões de trabalhadores tiveram direito de receber um dinheiro do FGTS por conta de correção em contas inativas. Tal situação que para um olhar apressado pode parecer boa, foi na verdade mais uma transferência de renda dos humildes para os mais abastados. O dinheiro recebido do FGTS deixou de ser poupança porque não foi utilizado para investimentos, e sim para pagar dívidas e comprar bens e produtos que há muito os trabalhadores necessitavam, ou seja, o dinheiro saiu do bolso dos trabalhadores e foi para o dos patrões.

A Reforma da Previdência mexeu com os sentimentos dos trabalhadores e continuará a mexer em 2018, uma vez que sua votação ficou para este ano. O desgoverno Temer afirma que a previdência está quebrada e é preciso reformá-la. Disse que o trabalhador vive em média 80 anos e que em breve estará vivendo 140, parece profecia, e não será possível pagar aposentadorias.  Especialistas em direito previdenciário afirmam que a Previdência é superavitária. O governo diz que é blá blá blá. CPI do Senado aponta que empresas privadas devem mais de R$ 520 bilhões à previdência. O governo não fez gesto para cobrar estas dívidas, ao contrário, perdoou R$ 25 bilhões do Banco Itaú que generosamente cedeu seu Economista chefe Ilan Goldfajn para presidir o Banco Central. R$ 25 bilhões é gorjeta se comparado a R$ 1 trilhão em isenção de impostos concedidos para petrolíferas estrangeiras. Percebe que somente para os assalariados não há dinheiro?

Os trabalhadores evangélicos emocionaram-se com o voto de seus pastores favoráveis a  reforma trabalhista. Não só na reforma, mas em qualquer projeto envolvendo a relação capital-trabalho votaram contra seus fiéis, digo, contra os trabalhadores.  Tenho a impressão que não apreenderam o ensinamento do Mestre Jesus que nunca deixou de expressar  sua opção  pelos pobres. Ao contrário do Mestre, os deputados pastores sempre optaram pelos mais ricos, mas não tem problema porque este ano eles serão reeleitos.  Os pastores são membros da bancada BBB como são chamados os deputados que fazem parte das bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia. Juntos somam 73% do total de deputados, ou seja, aprovam o que quiserem na Câmara Federal. Tal fato nos concede a oportunidade de ver mais uma vez os deputados pastores contrários à mensagem de Cristo, ignorando os pobres e posicionando-se ao lado dos ricos e dos violentos.

Houve sentimentos e espetáculos que foram negados ao trabalhador. Não se viu este ano aquelas manifestações gigantescas com pessoas vestidas com a camisa da CBF, desfilando atrás de um enorme pato amarelo de borracha e com transmissão ao vivo para toda a nação. Igualmente, não se ouviu o som das batidas de panelas. Não se sabe se os manifestantes estão contentes com a atual situação ou não foram para as ruas porque a maior rede de televisão, Sua Majestade, não fez convocação. Fomos privados de danças com coreografias e de mulheres nuas querendo aparecer, digo, querendo protestar.

A maioria dos trabalhadores não gostou dos sentimentos que lhe foram proporcionados, mas teve trabalhador que gostou e comemorou a deflação. Creio que desconheça que deflação é um sinal de que a economia estagnou. Nada mexe na convicção dos trabalhadores de direita. Têm fé inabalável no capital e posicionam-se contra os trabalhadores. Os vejo como ovelhas que defendem os direitos dos lobos.

O casamento de Maria Victória evidencia desprezo pelo povo.

O casamento da deputada Maria Victória revela muito do que os coronés, digo, a elite de direita pensa do povo. Revela desrespeito com a população. Não estão nem aí para o povo.  Fazem o que querem e ponto. O povo que se f…

O povo não gostou do circo montado por Maria Antonieta, digo, Maria Victória. E como a deputada esqueceu o pão, o povo resolveu a situação e jogou ovos nos noivos.  “En la lucha de clases todas las armas son buenas. Piedras/Noches/Poemas”. Paulo Leminski. Yo añadiria mierda y orina. Caro leitor, não sei como não tiveram  a ideia de jogar merda e urina. Imagine o alvoroço. Sacos de merda voando e convidados “elegantérrimos” correndo.

Para uma família que tem fonte de renda oriunda do setor público, a cerimônia soou como um escárnio à população e parte desta respondeu a altura.  Mami é Vice-governadora. Papi é Ministro da Saúde e já foi prefeito de Maringá – PR, cujo posto é ocupado pelo tio paterno, mas já foi do avô paterno. O titio materno entre outras coisas foi vereador de Curitiba e, recentemente, esteve envolvido na operação Quadro Negro que é aquele escândalo em que o Governo Rixa pagou para a Construtora Valor construir escolas. Pago foi, mas elas não foram construídas. Em alguns casos, nem a fundação foi feita. E a noiva é Deputada Estadual que no passado se escondeu dentro de um Camburão de polícia, para votar a favor do saque ao fundo de aposentadoria dos servidores. Precisa mais?

Precisar não precisa, mas tem. Papi defendeu corte no Bolsa Família. Ideia defendida pela noiva na Assembleia Legislativa do Paraná. “Que aprendam a pescar” disse a nubente. Querem que os pobres pesquem sem ter vara e anzol, enquanto eles pescam com tarrafa (rede de pesca) nos cofres públicos. Defendem um estado mínimo, para o povo, mas vivem de mamar nas tetas da viúva. No governo golpista, papi foi agraciado com o cargo de ministro da saúde e disparou algumas pérolas: “Homens procuram menos o sistema de saúde do que as mulheres, porque trabalham mais”; “Pacientes imaginam doenças”; “É preciso rever o tamanho do SUS”; “os usuários devem migrar para os planos de saúde privados”. Neste ponto é preciso lembrar que os principais financiadores da campanha para Deputado Federal de Ricardo Barros foram os planos de saúde privados. Lobby? Também disse a celebre frase: ”Exames com resultados normais são desperdícios para o SUS”. Esta fala explicita erro de entendimento, porque é justamente o contrário. Resultados normais de exames são ótimos para o SUS, porque os diagnosticados não precisarão de internamento e tratamento médico, o que evita mais “gastos”. Mas o que fica explicito no conjunto das falas é o desprezo que o Ministro da Saúde tem pelo povo brasileiro que necessita do SUS, por não ter alternativa.

Tudo tem um limite e creio que a paciência do povo está chegando ao fim. É aquela história da panela de pressão, que um dia estoura.

A cerimônia de casamento explicita dois Brasis. Um dos “coronés” que tudo podem, desprezam o povo e só colhem bônus dos setores privado e público. É explicito que eles não diferenciam estado de família. Vivem numa espécie de Disneylândia tropical e acreditam que são herdeiros das capitânias.  O outro Brasil é formado pela população que só fica com o ônus dos setores privado e público. E não pode nem protestar, porque as forças repressivas, pagas com dinheiro público, estão sempre de prontidão para lhe calar a voz.

Conseguiram a oposição até da imprensa local, burguesa e adesista, por realizar a festa no Palácio Garibaldi que é tombado e não é local para festas. Caro leitor, se quisesse casar sua filha naquele local, crê que teria êxito? Não. Isto é somente para “coronés”. Papi disse que a única coisa não feita foi o desejo da nubente de ir a pé da Igreja do Rosário, construída por escravos e conhecida como Igreja dos Pretos, até o Palácio Garibaldi. A fala explicita que resolveram fazer a festa naquele local e fizeram. Quem não gostou…  Quanto a caminhada da Igreja até o Palácio, decerto na cabecinha da nubente, imaginou-se a Cinderela na Res pública europeia de Curitiba e que o povo a aplaudiria. Tola e arrogante.

A breguice da “aristocracia” das Terras das Araucárias foi boa para o povo ver o a indiferença que a “elite” tem por ele. Repito, paciência tem limite e se a panela de pressão não for retirada do fogo no momento adequado, estoura.

O som da flauta.

 

 

Melissa ouviu um som de flauta agradável que parecia mágico. A música mexia com ela e despertava sentimentos adormecidos. Repentinamente percebeu que nos últimos tempos  visou  somente o lado profissional, com pensamento fixo em dinheiro. Parece que esquecera que era humana. Esquecera o valor da solidariedade, do amor e da amizade. Coisas simples do dia a dia que dão sentido à vida.

O som vinha das redondezas de sua residência, porém não conseguia identificar exatamente de onde. A agradável musica a excitava no sentido figurado e no sentido literal. Uma excitação plural que provocou nela reflexão sobre diversos aspectos do viver. O som a retirou da rotina mecanizada e repetitiva e a impregnou de um sentimento intenso de vida. Pensou: “não consigo ficar parada, preciso caminhar”.

Largou a calculadora que estava usando para planejar seus gastos. Abriu a porta da casa e saiu, logo alcançando a rua. Não escolheu caminho e seguiu pelas ruas que sua intuição a indicava. Após alguns minutos de caminhada chegou a uma avenida de tráfego intenso. Observou as pessoas atravessando a rua correndo em meio aos carros que trafegavam em velocidade incompatível para o lugar. “Pra que tanta pressa?”, pensou. Ia pedir uma água de coco para um ambulante quando viu uma senhora octogenária parada à margem da avenida, esperando para atravessar. Rapidamente dirigiu-se até a senhora e ofereceu ajuda. Segurou a idosa pela mão e fizeram a travessia. A boa ação provocou um sentimento de bem-estar em Melissa.

Entrou à direita da rua em que estava e continuou caminhando. Sentia-se bem em estar circundada por pessoas. Alguém lhe acenou com a mão de longe e ela respondeu. Inicialmente não reconheceu a mulher que acenou e então pensou: “Deve ser do curso de inglês ou seria da faculdade de contabilidade? Que diferença faz se é do curso ou da faculdade, tanto faz”. Enquanto caminhava imersa em seus pensamentos passou por um homem que lhe acenou com a cabeça sorrindo afetivamente. Melissa percebeu o interesse do homem e isto lhe fez bem. O flerte fez sentir-se mulher bela e desejável. Tudo parecia melhorar.

O som da flauta não saia de sua cabeça. Já não o ouvia mais porque estava distante de sua casa, porém a música ficou gravada em sua mente, de modo que ela usufruía a aprazível música. Passou em frente a uma creche e lembrou a promessa que fizera a diretora de ministrar uma aula semanal de língua estrangeira para as crianças. “Falarei com Giovana esta semana e retomaremos este projeto. Vai ser bom porque as crianças na tenra idade aprendem com mais facilidade”.

A mente estava ativa e vinha um pensamento atrás do outro. Pensamentos que lhe mostravam que precisava retomar as atividades que havia relegado ao priorizar o lado profissional. “Sempre o dinheiro”, pensou. Disse para si mesma que viajaria, iria ao teatro, visitaria amigos e amigas e também sairia para dançar. Entre os pensamentos um a deixou triste. Lembrou que estava só, sem um amor. Disse para si que não queria somente companhia, queria um amor ou como dizia a música: “um homem para chamar de seu”. Enquanto viajava em seus pensamentos avistou um parque. Dirigiu-se ao parque para descansar um pouco e respirar ar puro, ver pessoas.

Entrou no parque e a música novamente toma o centro de sua atenção. Sorriu

Com satisfação pensando que a música que ouvia vinha de sua mente, porém quanto mais adentra o parque mais o som da música torna-se alto e real. Pensou: “Isto não é imaginação, este som é real”. Saiu da pista de caminhada e começou a andar por entre as árvores seguindo o som da música e um questionamento veio a sua mente: “Como posso estar ouvindo o som desta flauta estando tão longe de casa? Não há dúvida que é a mesma música”. Matutou um bocado, não encontrou explicação e disse para si: “Para que racionalizar tudo. Tem coisas que não tem explicação”. Mais alguns minutos de caminhada e chegou próxima de uma árvore de onde vinha o som mágico. Olhou atrás da árvore viu um homem belo sentado e tocando a flauta. O homem sorriu para ela. Melissa retribuiu o sorriso. Sentiu um frio na barriga, o coração bater mais rápido e seu peito ficar leve.  Viu um brilho nos olhos do homem que se conectou com o brilho nos seus olhos. Neste momento, feliz da vida, lembrou um trecho da música cantada por Zizi Possi, que diz: “É só bater na porta e entrar/ que nunca chove sem molhar/ bem que eu disse pra você que o amor vem pra cada um”.

A Previsão.

 

Um cão pequinês com pelo na cor marrom jaz morto na calçada, em frente da casa, próximo ao Jardim. Margarita sai do interior de sua casa para  fazer compras e vê o cão morto.  Fica triste e abaixa-se para acariciar o animal morto. Chora a perda do amigo. Inicialmente chora baixo, mas a tristeza aumenta e começa a chorar copiosamente.

Ubaldo ouve o som do choro de sua mulher. Estranha, porque não havia ouvido o som do motor carro e Margarita lhe dissera que iria fazer compras. Caminha rapidamente para ver o que está acontecendo. Vê a sua querida agachada e derramando lágrimas em frente ao cão. “O que houve mulher?”, pergunta. Ela responde: “Lulu morreu. Não sei o que houve. Ele estava bem de saúde”.

Ubaldo agacha-se e abraça a mulher para consolá-la e diz: “Essas coisas acontecem. Para morrer, basta estar vivo. Sei que gostava muito de Lulu, mas vamos conseguir outro cãozinho para você”. A mulher responde que Lulu é insubstituível, continua a chorar e não há nada que a console.

Enquanto estão agachados e sua esposa chora a perda do cão, passam duas mulheres em frente da casa. Com sorriso irônico as duas observam a cena. A mulher mais velha cochicha no ouvido da mulher mais jovem e bela, e sorriem. Ubaldo parece adivinhar o que ela está cochichando. Margarita estranha o fato e diz a Ubaldo: “Quanta maldade dessas mulheres. Sorrir da morte do animal e ainda cochichar, fazendo piadas”. Ubaldo para desconversar pede que a mulher ignore a situação e procure recompor-se. Diz para a esposa que vai buscar um saco plástico para embalar o cão. “Vamos retirá-lo do sol para evitar que cheire mal enquanto a prefeitura não vem buscar o animal”.

Enquanto vai buscar o saco plástico Ubaldo pensa: “Não é que a velha estava certa. Aquele sorriso irônico revela tudo”.

O leitor deve estar pensando que Ubaldo está louco, mas garanto que não. Vou já esclarecer a situação. A velha era uma cartomante que Ubaldo havia ido visitar junto com a mulher bela e jovem, que foi amante de Ubaldo durante dois anos. A amante havia jurado a Ubaldo que iria vingar-se por ele terminar o relacionamento. Dissera que não ficaria barato o fato de ele voltar à esposa e abandoná-la ao léu. Ela o amava. Quanto a cartomante, esta havia “visto” no tarô que a mulher de Ubaldo iria sofrer ao ver morrer o ser que ela mais amava. Um sentimento de alívio encheu o peito de Ubaldo. Nos últimos tempos ele sofreu e esteve nervoso e tenso pensando que ia morrer, porque imaginava que fosse ele o ser que a mulher mais amava.  “Quanto sofrimento à toa”, pensou.

Lembrança de carnaval.

 

 

Claudia, loira bela de meia idade, assistia aos desfiles de carnaval na TV. Confortavelmente deitada no sofá, mexia freneticamente no celular. As vezes pegava o controle remoto e trocava de canal. A sua frente, deitada sobre o tapete e almofadas estava sua filha.

A jovem olha para a mãe e diz: “mãe, posso ir com as amigas amanhã pular carnaval? Mãe, você gostava de pular carnaval? Tem alguma lembrança de algum carnaval que a marcou?” A mãe responde: “Isto é um interrogatório? Quando completar 18 anos você poderá pular carnaval. Sim, eu gostava de pular. Sim, teve um carnaval que jamais me sairá da lembrança, mas não quero falar deste assunto?”.

Após breve silêncio a jovem retoma a conversa: “Você sempre me disse que podemos falar sobre qualquer assunto, lembra? ” Contra a vontade Claudia balança a cabeça afirmativamente e a guria aprofunda a conversa: “Você transou com alguém neste carnaval que não lhe sai da lembrança?” Surpreendida com a pergunta a mãe diz: ”que é isto, guria? Sou sua mãe.” A menina responde:” Você sempre me deu liberdade para falar de qualquer coisa, estou esperando”.

Contrariada, a mãe responde: ” Estava com umas amigas pulando o carnaval e conheci um belo rapaz. Quando o vi meus olhos brilharam e percebi também brilho nos olhos dele. Não nos largamos durante os quatro dias e no quarto dia para nos despedirmos, transamos”. A jovem pergunta: “A transa foi boa? Há quanto tempo foi e onde você pulou este memorável carnaval?” Tensa, a mãe responde: “Sim, a transa foi ótima, aliás, não foi uma transa e sim um maravilhoso ato de amor”. Foi há 17 anos e estávamos em Pernambuco.

Silêncio total. A mãe, desconfortável com a conversa, olha para a guria de 16 anos que parece pensativa. Claudia percebe que a guria descobrira qual era a lembrança marcante e o motivo de seu nome ser Olinda.