A alegoria da caverna na atualidade.

 

 

Platão discorre sobre a Alegoria da Caverna no capítulo 7 de seu livro A República. O mito é amplamente conhecido e estudado. Mas é preciso dizer do que se trata, ao menos sucintamente. Diz que no interior de uma caverna há homens acorrentados e de costas para a saída. Impedidos de movimentar-se viam apenas as sombras que eram projetadas na parede, no lado interno. Uma fogueira, no lado externo, projetava para o interior, sombras de pessoas e animais que passavam na frente da caverna. Os prisioneiros acreditavam que as sombras dos objetos eram os próprios objetos, e não apenas sombras deles.

Muito bem. Percebe-se nos dias atuais que grande parte da população está vendo apenas sombras, que acreditam ser a realidade. Compram o discurso e propaganda de combate a corrupção como se isto fosse o real, e na verdade são apenas vultos. O povo precisa aprender a ler as entrelinhas, a discernir a motivação que embasa um discurso.

O discurso da moralidade não passa de névoa porque nem sombra é. Fundamentam a fala na moralidade, mas o objetivo era e é a tomada do poder. Cientes que não conseguiriam o poder através das urnas, vide 4 derrotas consecutivas, resolveram discursar o que o povo queria ouvir. E conseguiram. Corruptos discursando que acabariam com a corrupção. O povo acreditou.

O modus operandi que utilizam para construir um país ético nada tem de ético, ao contrário, eles atropelam a lei e o “réu” é condenado antes do julgamento, e o que é pior, sem provas. Sempre ouvi dizer que na ausência de provas o benefício deve ser dado ao “réu”. Mas não é o que acontece na república das bananas, digo, do Brasil. Basta elaborar um discurso lógico e adorná-lo com propaganda a exaustão, que a maior parte da população acredita. Acredita porque desconhece uma fala da filosofia cética que diz que é possível produzir um discurso forte e com capacidade de persuasão, a favor ou contra qualquer coisa. Dito isto, o leitor pode imaginar o valor de provas materiais e irrefutáveis em um julgamento. Igualmente pode imaginar o valor da declaração de uma ministra do STF que ao proferir seu voto, no julgamento do mensalão, disse que mesmo não tendo sido apresentado provas, ela votaria embasada na literatura jurídica.

Recentemente, anularam mais de 54 milhões e 500 mil votos sem uma prova sequer de que a Ex-Presidenta Dilma fosse culpada ou corrupta. As tais “pedaladas” também foram feitas por FHC, por Lula e por 17 governadores que estão exercendo seus mandatos, e não há nenhum questionamento das “pedaladas” destes. Parece que ao invés de construir um país ético, estamos construindo um país de cínicos, de sarcásticos indiferentes à legalidade, contanto que consigam seus objetivos. Esquecem que pau que bate em Chico também bate em Francisco.

Discursam querer levar o país para a modernidade, quando são a causa do atraso do país.  Falam querer distribuir as riquezas, quando na verdade querem é preservar seus privilégios. Seus atos os contradizem e fica explicito que o resultado de suas ações será maior concentração de renda. Representam o que tem de mais arcaico, mais retrógrado nos trópicos. A parcela dos brasileiros que aplaude e enxerga sombras, não consegue visualizar que o mais prejudicado é o povo, ou seja, eles mesmos. Aplaudem e ovacionam aqueles que vão lhes chicotear, aqueles que vão lhes retirar direitos. Vai entender este apego a corrente. Difícil. Será que é tão difícil para a sociedade enxergar e compreender que só vamos nos desenvolver enquanto nação através da inclusão dos excluídos? São milhões de pessoas. Número maior que a população de muitos países juntos. Milhões de consumidores que ficam a margem e a deriva por causa da ganância de alguns que acreditam serem donos do país.

É muito difícil entender que para construir uma sociedade ética é preciso respeitar as leis? Faz-se necessário que as leis sejam iguais para todos, e não só para um campo ideológico. Ganhar o “jogo” embasado em discurso tendencioso e muita propaganda é igual a ganhar uma partida de futebol com gol ilegítimo, roubado, ou seja, não se constrói uma nação ética valendo-se de artifícios antiéticos, ao contrário, apenas reforça-se a ideia de que vale tudo para impor uma visão de sociedade. Vale tudo para alcançar os seus objetivos, em outros termos, o comportamento corrupto é afirmado e legitimado.

“(…) tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se a alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo? (…)” (Platão, A República. Pág.228).

Na Alegoria da Caverna, Platão diz que se um dos prisioneiros conseguisse soltar-se das correntes e após adaptar-se com a iluminação externa iria ver os objetos tais como eles são. Acaso retornasse para contar a verdade aos demais que ficaram acorrentados, estes não acreditariam e tentariam matá-lo. Basta estabelecer uma analogia da citação acima com o momento atual, para perceber a veracidade da fala de Platão. Tudo se explicita. Como diz aquele ditado popular antigo do tempo que as mulheres se maquiavam com “pó de arroz”: “não é pó de arroz, mas está na cara”. Basta o prezado leitor olhar para a atualidade e ver trabalhadores lutando contra seus direitos. Acaso não é repetido à exaustão o bordão de que política não vale a pena, quando na verdade “veem” seus destinos decididos pelos políticos. Fazem isto não porque sejam burros, mas porque apenas veem sombras e acreditam ser o real. E quando aqueles que conseguem ler as entrelinhas lhes mostram o objeto real, eles não ficam furiosos? Não enchem o peito de raiva e saem semeando ódio? Quer arrumar um inimigo? Mostre para alguém que sua interpretação está errada.

Há muito tempo que uma parcela da sociedade alerta que o objetivo não era o combate a corrupção. Hoje isto está comprovado. É só olhar no atual governo, quantos ministros fichas sujas tem. É só observar que os partidos que estão no poder atualmente, DEM, PMDB e PSDB, foram classificados em primeiro, segundo e terceiro lugar no ranking da corrupção divulgado pelo TSE em 2016. É mole? Ranking de corrupção!  É caro leitor, aqueles que pregam discurso ético são os que lideram o ranking.  E então emerge a pergunta: está ou não grande parcela da população a ver sombras e a acreditar que aquilo que vê são objetos reais?

Também se alertou fartamente que o objetivo em relação à Petrobrás não era saná-la e sim vender o pré-sal. Havia um projeto em que 75% dos recursos oriundos do pré-sal iriam para a educação e 25% à área da saúde. Seria o “pulo do gato” para que nossa sociedade tivesse mais qualidade de vida. Precisa dizer de que lado a parcela da sociedade que só vê sombras, e que seria beneficiada, ficou? Agora que estão a testemunhar a venda do pré-sal para as grandes petrolíferas mundiais, talvez percebam que o alerta era verídico.

Estamos diante de um embuste em que o saque da hora é a reforma do ensino público por meia dúzia de burocratas. Reforma feita sem discussão alguma com a sociedade e os educadores. Resolveram retirar das grades Filosofia, Sociologia e outras matérias do âmbito das Ciências Humanas. Engraçado, estão retirando a disciplina que ensina a pensar metodicamente, a ter uma visão crítica da sociedade e também a disciplina que mostra como a sociedade é constituída, como é formada e quais são suas tensões. Fazem isto para colocar mais matérias técnicas, ou seja, querem mais robôs para apertar parafusos, vide Tempos Modernos de Chaplin, e menos cidadãos pensantes capazes de construir uma nação livre e independente. Advinha de que lado aqueles que somente veem sombras vão se postar? Uma bala de caramelo para quem acertar. Em suma, a Alegoria da Caverna está atualíssima nos trópicos, 2500 anos depois de ser escrita.

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Terra de coronés.

 

 

Quem imagina que coroné é coisa do passado, engana-se.  Eles estão por aí. Nas diversas atividades sociais. E o pior é que estão mandando, e muito.

Nos rincões afastados do país talvez ainda usem aqueles trajes rurais típicos com o fique quieto, revólver, na cintura. Donos da vida e da morte, do destino e da vontade das pessoas. São magistralmente descritos por Jorge Amado em seus romances.

Percebe-se que mais de um século depois da proclamação da república eles proliferaram e atuam em diversos segmentos da sociedade. Estão no setor de comunicações, representados por seis ou sete famílias que controlam a imprensa de um país de dimensões continentais e 204 milhões de gados, digo, pessoas. Embora chamem os brasileiros de telespectadores ou leitores, na verdade os tratam como gados, dirigindo seus pensamentos e os direcionando igual aos vaqueiros quando conduzem a boiada.

São facilmente observados no Judiciário. Onipotentes e intocáveis. Podem tudo e ninguém ou nada pode contra eles. Quando pegos em delitos ou cometendo erros absurdos sofrem uma punição, que é a aposentaria com salário integral e todas as benesses da ativa. Há coronés deste setor que desrespeitam leis. Transformam-se em justiceiros e nada lhes acontece. Seletivos e ágeis quando lhes convém. O contrário também é verdadeiro porque são lentos e vagarosos em alguns processos idênticos àqueles em que aplicam celeridade.

Também estão situados na esfera econômica. Capitalistas tardios. Gostam de ganhar muito e pagar pouco. Há os que preferem o trabalho escravo. Inclusive tem senador acusado de manter pessoas trabalhando em regime de escravidão em suas fazendas. Pregam a concorrência para o povo na busca de emprego. Eles preferem os conchavos e risco zero. Alguns continuam no setor rural, hoje nomeado agro negócio.  Muitos além de atuar nesta esfera, igualmente, estão na indústria e no setor de serviços. A mentalidade primitiva e o modus operandi continuam os mesmos. Podem tudo e o povo só pode aquilo que permitem.

É inegável que a área que mais gostam é a política. São vistos nas esferas municipais, estaduais e federais. Enquanto muitas pessoas batem no peito e dizem não gostar de política, e se dizem imparciais embora sempre neguem um lado, os coronés adoram política. Gostam tanto que para eles não há diferença entre o estado e suas famílias, suas terras e empresas. É tudo deles. Está tudo dominado, pensam. Acaso o leitor observe os sobrenomes dos políticos irá perceber que o coronelato é hereditário. Lembrou as capitânias hereditárias? Parece que elas se modernizaram. Engana-se quem pensar que coroné é exclusividade do Nordeste. Estão em todo o país, no Sul, Sudeste e Centro Oeste que são as regiões mais ricas da nação.

No momento não há melhor exemplo para ilustrar a presença dos coronés, em nosso cotidiano, que Temer e seu ministério.

A ideia do estado mínimo.

 

O leitor já ouviu políticos e economistas a pregar a ideia do estado mínimo? Creio que responderá sim. Neste texto vamos analisar, basicamente, o que significa tal proposição. O alicerce da doutrina é que o estado, no caso o governo, deve interferir o mínimo possível na economia do país. A economia, toda ela, deve ficar ao encargo da iniciativa privada e sua regulação ao encargo do onipotente mercado.

 

A ideia é maravilhosa, para os grandes capitalistas. São eles que possuem os meios de produção e o capital para investir. Não causa surpresa que preguem a ausência, digo, participação mínima do estado.

O governo, responsável pela administração do estado, não deve participar da economia, ou seja, não deve existir empresa pública. Antigamente, os adeptos do estado mínimo concediam que os governos cuidassem da saúde, da educação e segurança. Hoje, nem isso. Veja que pregam a privatização da saúde através dos planos privados. Isto significa que quem tem dinheiro tem acesso a saúde, quem não tem fica de fora. Igualmente pregam a privatização de universidades e até do ensino secundário, o antigo segundo grau. Serviços de segurança privada proliferam mais que ratos em lixões.

Diz a doutrina que imposto deve ser único ou mínimo, se preferirem. Observe que são os impostos que propiciam ao estado o fornecimento de serviços básicos e indispensáveis à população. Direito trabalhista, somente o indispensável. Preferencialmente que não exista nenhum. Preços dos produtos e serviços, e, igualmente, os salários devem ser resultado das forças do mercado, conhecidas como oferta e procura. Então tá! Não dizem que estas forças de mercado são facilmente manipuladas através de um acordo da quantidade ofertada e demandada. Isto pode ser acertado em um churrasco. Acaso não queiram participar da festa, também podem acordar estas regras através de um chat de bate papo de alguma mídia social ou através de email. Há outras facilidades de comunicação, mas não vem ao caso.

Entretanto, há ocasiões em que admitem uma forte participação do estado. Por exemplo, afirmam que o estado deve construir rodovias, ferrovias, aeroportos, portos, fontes de energia barata e outros. Os itens acima elencados devem ser construídos pelo estado para facilitar e dinamizar a economia, deles. Ah! Eles também dizem que o estado deve lhes fornecer isenções tributárias e subsídios, muitos subsídios.

Um olhar cândido verá tudo muito bonito, lógico. Agora se tirarmos as escamas dos olhos e lançarmos um olhar crítico a esta doutrina, veremos que a ideia do estado mínimo só vale para o povo. As proposições deles somente trazem ônus para a população, porque para os grandes capitalistas é somente bônus. Só alegria, para eles. Até nas situações em que admitem a participação do estado na economia, a equação ônus para o povo e bônus para eles, continua inalterada.

Adotar a ideia do estado mínimo é algo semelhante a soltar raposas em um galinheiro ou colocar lobos para cuidar de ovelhas. Acaso o leitor se dê ao trabalho de analisar criticamente a doutrina por eles propagada, verá que o estado é o máximo, para eles. Destas ideias pode-se ver que o estado é o salvador da pátria, deles. Não esqueça que capital não tem pátria.

Engana-se quem pensar que sou contra a iniciativa privada. Acerta aquele que pensar que sou contra o estado mínimo. O estado deve ser o agente regulador dos conflitos, que independente das vontades, sempre existirá nas sociedades.

O Brasil dividido?

 

Muitos afirmam que o país está dividido. A causa seria a tensão entre capital e trabalho. Esta tensão sempre existiu. Só não existirá quando os trabalhadores estiverem dispostos a perder seus direitos ou abrir mão da conquista de novos direitos. Não sei o que pensa caro leitor, mas eu não estou disposto a abrir mão de meus direitos. Já não são muitos.

Embora a relação capital-trabalho figure na base da divisão e dos discursos acalorados, a verdadeira divisão que vejo é entre a classe trabalhadora. O Capital foi extremamente hábil e não só desmantelou a organização dos trabalhadores no país, como também jogou trabalhadores contra trabalhadores.

Chega a ser engraçado e hilário ver trabalhador, e estes são muitos raivosos, defendendo o capital.  Penso que os capitalistas devem dar gargalhadas da atitude dos assalariados que os defendem. Como entender alguém que defende os interesses de seu algoz? Como entender alguém que luta contra seus próprios interesses?

Alguém já percebeu, no atual momento político, capitalista brigando com capitalista? Não, né? Esta frase explica o porquê dos capitalistas estarem dando gargalhadas. Eles sabem que possuem o capital e todo o aparato do estado burguês para defender os seus interesses. Também estão cientes que isto não é suficiente e só conseguirão continuar no poder, causando divisão entre os trabalhadores. Igualmente sabem que somos a maioria absoluta. Daí decorre a necessidade de dividir a classe trabalhadora.

Quem sabe um dia, parte dos trabalhadores acordem e descubram que fazem parte da maioria, e quiçá se unam aos demais, já despertos, em prol de interesses comuns. Por estas e por outras lhe digo amigo leitor, enquanto houver trabalhadores que se digam capitalistas, e não o são porque capitalista é quem detém os meios de produção e não é o caso, perde a classe como um todo. Do exposto acima, fica evidente que quem está dividido é o fator trabalho, e não o Brasil.

Resistir é preciso. Não temos alternativa.

13734867_1596747487290183_6975791558008540477_oNo caminho com Maiakóvski

“[…]

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

[…]”

Eduardo Alves da Costa.

 

“Não está morto quem peleia”. O ditado gaúcho é o sentimento que devemos trazer no peito neste momento decisivo em que será votado o impeachment da Presidenta Dilma no Senado. Somente a pressão das  ruas pode fazer  alguns senadores mudarem o voto. A vida passa tão rápido. Ainda lembro o piá que fui. Jogando bola nos terrenos baldios. De pé no chão, calção e camiseta surrados e muita habilidade com a redonda. Sim. Fui bom de bola. Agora, com barbas brancas vejo um cenário deprimente na nação.

Vejo as pessoas anestesiadas  e sem ânimo de luta. Uma nação prostrada em meio a corrupção deslavada que a assola. Vejo golpistas entregando as nossas riquezas ao capital estrangeiro.  Vejo o fim de programas sociais e retiradas de direitos trabalhistas. Também uma política econômica que visa capitalizar os capitalistas, em outros termos, vejo uma política que transfere renda daqueles que menos possuem para aqueles que muito possuem. Vejo canalhas que se travestiram de homens honestos e num golpe branco tomaram o poder, humilhando mais de 54 milhões de pessoas.  No outro extremo, situam-se os que apoiaram o golpe acreditando que estavam acabando com a corrupção nos trópicos. Esta ideia eles não tiveram por si próprios, antes, foram convencidos através de intensa propaganda de um mídia antiética. Embarcaram em uma canoa furada, foram enganados.

É neste contexto que se realiza o lançamento do livro Crônicas da Resistência 2016. O evento será o primeiro grande ato político, em Curitiba, em defesa do mandato de Dilma. Não podemos desistir da luta. A consciência não deixa. É preciso resistir a esta mediocridade. Aqueles que acreditam na democracia e sonham com um mundo melhor, precisam sair do conforto da tela do computador e ir à rua. Precisamos e contamos com vossos apoios e presenças. Político só age sob pressão do povo nas ruas. Vale lembrar que por ação ou omissão estaremos dando nossa contribuição. Perder não é feio. Feio é ser roubado e ficar quieto. Feio é roubar o poder como os golpistas fizeram. Apoiados por milhares de pessoas de bem, e ingênuos.

O poema acima ilustra bem a situação que vivemos. A militância da esquerda parece anestesiada e não vai à rua demonstrar sua insatisfação. Limita-se a compartilhar postagens  políticas nas redes  sociais. Estas postagens provam que o que houve foi golpe e explicita aos apoiadores do golpe sua contradição e engodo. Mas é pouco. Precisamos sair para as ruas. Muitos dos que apoiaram o golpe mudaram de ideia,  mas igualmente permanecem quietos. Talvez envergonhados da posição que tiveram.

Enquanto permanecemos quietos ou anestesiados, os golpistas vão avançando e destruindo os nossos direitos. O silêncio das ruas parece legitimar as ações de um governo golpista e corrupto. A velha mídia se cala frente aos casos de corrupção deste governo. Por que Romero Jucá está solto ainda? Por que não o trouxeram coercitivamente para Curitiba? Ele não estava trabalhando para impedir as investigações da Vaza a Jato?

Tal qual diz o poema, quando percebermos eles estarão dentro de nossa casa. Calarão nossas bocas com leis, impostos e muita repressão. Então já não poderemos dizer nada. A hora é agora. É preciso gritar que a nação não está contente com o golpe, e com os resultados que os golpistas vem produzindo. Vamos todos à rua participar dos atos políticos que tentam  restaurar a democracia e devolver a dignidade à nação.

Fatos interessantes do atual momento político brasileiro.

 

 

O cenário político atual mostra coisas interessantes. De repente, o brasileiro vê uma face do país que não estava oculta, mas não estava tão escancarada.

Uma destas coisas é a baixa qualidade do congresso brasileiro. Todos sabem que por lá a corrupção faz morada. Mas neste momento de embate político evidenciou-se que o buraco é bem mais fundo. A coisa é muito pior do que se pensava. Na falta de argumentos para o debate as Vossas Excelências, que de excelência não tem nada, partem para a porrada. Isso mesmo. Não é raro ver deputados aos gritos e trocando socos para fundamentarem suas ideias. Dos 367 Deputados que votaram pelo afastamento da Presidenta Dilma, 60% deles são réus em processos no STF. E não é raro vermos estes, que no dia da votação do afastamento bradaram aos céus suas lisuras, aparecerem na mídia sendo presos por corrupção. Causa estranheza o ex-presidente Eduardo Cunha, comprovadamente corrupto, e grande herói de parte da nação ser considerado capaz de presidir a Câmara até o término do processo de afastamento da Presidenta. Após o serviço sujo feito, o STF o julgou incapaz de presidir a Câmara Federal. Laranja? Diante destas evidências alguns incautos pregam o retorno da ditadura militar. Quanta bobagem! É justamente o contrário. É de democracia que precisamos. Só para lembrar em 516 anos, o período democrático mais longo que tivemos foi de 25 anos, ou seja, se ditadura fosse sinônimo de qualidade, o Brasil estaria exibindo o selo ISO 9000 no âmbito político.

Por falar em STF, percebe-se no judiciário brasileiro uma preferência para julgar e condenar as lideranças trabalhistas. Há rigor e celeridade no julgamento das lideranças de esquerda. Cana neles! Porém, não se vê esta agilidade para julgar as lideranças de direita. Nem celeridade e muito menos boa vontade. Alguém sabe me dizer o que aconteceu com o helicóptero com meia tonelada de pasta de cocaína pura? Faça um exercício e imagine se o helicóptero e a fazenda fossem de um senador e um deputado da esquerda. Já imaginou?  Lembra do mensalão tucano? É de 1996. E da lista de Furnas? Dos desvios na área da saúde em Minas Gerais? Do cartel dos metrôs em São Paulo? Do aeroporto na fazenda do titio? Da… Do…

E o que o leitor pensa do comportamento ético da “nossa” imprensa? Imparcial?  Sabiamente o ex-primeiro-ministro italiano Massimo D’Alena disse que a imprensa brasileira não informa, faz propaganda. “Ela faz propaganda exaustiva de uma versão dos fatos. E não oferece espaço para o contraditório”. Acertou no fígado. Nocaute! É preciso lembrar que ela faz propaganda, péssima, somente quando os acusados são da esquerda. Nestes casos, a propaganda dá-se dia e noite. Quando falam de casos de corrupção da direita, dão notas pequenas. E no momento seguinte mudam rapidamente de assunto e apresentam matéria de algum êxito nacional no esporte ou nas artes. Em suma, o comportamento da imprensa é abominável. Não informa, formata cérebros.

Entretanto, o que mais salta aos olhos neste momento de turbulência e truculência da política nacional é que o Brasil tem donos. Só eles podem. E podem tudo. Os “donos” do Brasil são facilmente localizados na imprensa, no judiciário, na política e na sociedade civil. Quando contrariados não ousam em vociferar: “vão pra Cuba”. Dizem com a naturalidade de quem é dono deste país tropical e bonito por natureza. Evidenciam o fim do mito do brasileiro bonzinho e simpático. Suas bondades e simpatias foram expressas, entre outras ações, no adesivo em que colocaram a Presidenta de pernas abertas nos tanques de gasolina de seus carros. Quer maior demonstração de bondade, civilidade, educação e coração amoroso?

Os “proprietários” do Brasil querem nos impor o neoliberalismo goela abaixo. Ignoram que nas 4 últimas eleições a maioria da população brasileira rechaçou este projeto. Penso que eles pensam quão pretensiosos os trabalhadores quererem que seus votos tenham validade. Que ousadia querer que o voto de um trabalhador tenha o mesmo peso que o voto de um “dono” do Brasil. Consideram-se os herdeiros das capitânias, os “Sinhôs”, a Corte Imperial Brasileira do Século XXI. São contrários aos sindicatos que chamam de radicais. Sindicato de trabalhadores, naturalmente. Porque aos sindicatos de patrões são favoráveis.

Combatem ferozmente políticas públicas igual ao benefício bolsa família, que chamam bolsa esmola. Porém não dão um pio contra os subsídios polpudos que os empresários recebem. Afirmam que os pobres tem que aprender a pescar. Mas não se incomodam que o empresário não precise aprender a pescar. Que ganhe o barco, a rede e tudo o mais que precise para a pesca através dos subsídios. Não toleram que trabalhadores estudem e melhorem suas condições de vida. Ao contrário, educação e qualidade de vida é exclusividade deles, dos “donos” do Brasil. Isto é o que emerge dos seus discursos contraditórios e sem fundamento. Querem combater a corrupção com uma frente parlamentar ilegítima e corrupta, é mole?  Não vejo virtudes nas falas, ou falácias, dos “donos” do Brasil, ao contrário, o que emerge é cinismo.

Os trabalhadores são o problema. — Paulo de Jesus

Pode-se dizer que no capitalismo os trabalhadores são o problema, o estorvo. Digo isso porque em qualquer crise econômica, grande ou pequena, quem vai para o sacrifício é sempre a classe trabalhadora. Numa visão maniqueísta dentro da ótica capitalista pode-se inferir que os trabalhadores são o mal, enquanto os empresários capitalistas são o supremo bem. […]

via Os trabalhadores são o problema. — Paulo de Jesus