A Previsão.

 

Um cão pequinês com pelo na cor marrom jaz morto na calçada, em frente da casa, próximo ao Jardim. Margarita sai do interior de sua casa para  fazer compras e vê o cão morto.  Fica triste e abaixa-se para acariciar o animal morto. Chora a perda do amigo. Inicialmente chora baixo, mas a tristeza aumenta e começa a chorar copiosamente.

Ubaldo ouve o som do choro de sua mulher. Estranha, porque não havia ouvido o som do motor carro e Margarita lhe dissera que iria fazer compras. Caminha rapidamente para ver o que está acontecendo. Vê a sua querida agachada e derramando lágrimas em frente ao cão. “O que houve mulher?”, pergunta. Ela responde: “Lulu morreu. Não sei o que houve. Ele estava bem de saúde”.

Ubaldo agacha-se e abraça a mulher para consolá-la e diz: “Essas coisas acontecem. Para morrer, basta estar vivo. Sei que gostava muito de Lulu, mas vamos conseguir outro cãozinho para você”. A mulher responde que Lulu é insubstituível, continua a chorar e não há nada que a console.

Enquanto estão agachados e sua esposa chora a perda do cão, passam duas mulheres em frente da casa. Com sorriso irônico as duas observam a cena. A mulher mais velha cochicha no ouvido da mulher mais jovem e bela, e sorriem. Ubaldo parece adivinhar o que ela está cochichando. Margarita estranha o fato e diz a Ubaldo: “Quanta maldade dessas mulheres. Sorrir da morte do animal e ainda cochichar, fazendo piadas”. Ubaldo para desconversar pede que a mulher ignore a situação e procure recompor-se. Diz para a esposa que vai buscar um saco plástico para embalar o cão. “Vamos retirá-lo do sol para evitar que cheire mal enquanto a prefeitura não vem buscar o animal”.

Enquanto vai buscar o saco plástico Ubaldo pensa: “Não é que a velha estava certa. Aquele sorriso irônico revela tudo”.

O leitor deve estar pensando que Ubaldo está louco, mas garanto que não. Vou já esclarecer a situação. A velha era uma cartomante que Ubaldo havia ido visitar junto com a mulher bela e jovem, que foi amante de Ubaldo durante dois anos. A amante havia jurado a Ubaldo que iria vingar-se por ele terminar o relacionamento. Dissera que não ficaria barato o fato de ele voltar à esposa e abandoná-la ao léu. Ela o amava. Quanto a cartomante, esta havia “visto” no tarô que a mulher de Ubaldo iria sofrer ao ver morrer o ser que ela mais amava. Um sentimento de alívio encheu o peito de Ubaldo. Nos últimos tempos ele sofreu e esteve nervoso e tenso pensando que ia morrer, porque imaginava que fosse ele o ser que a mulher mais amava.  “Quanto sofrimento à toa”, pensou.

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Lembrança de carnaval.

 

 

Claudia, loira bela de meia idade, assistia aos desfiles de carnaval na TV. Confortavelmente deitada no sofá, mexia freneticamente no celular. As vezes pegava o controle remoto e trocava de canal. A sua frente, deitada sobre o tapete e almofadas estava sua filha.

A jovem olha para a mãe e diz: “mãe, posso ir com as amigas amanhã pular carnaval? Mãe, você gostava de pular carnaval? Tem alguma lembrança de algum carnaval que a marcou?” A mãe responde: “Isto é um interrogatório? Quando completar 18 anos você poderá pular carnaval. Sim, eu gostava de pular. Sim, teve um carnaval que jamais me sairá da lembrança, mas não quero falar deste assunto?”.

Após breve silêncio a jovem retoma a conversa: “Você sempre me disse que podemos falar sobre qualquer assunto, lembra? ” Contra a vontade Claudia balança a cabeça afirmativamente e a guria aprofunda a conversa: “Você transou com alguém neste carnaval que não lhe sai da lembrança?” Surpreendida com a pergunta a mãe diz: ”que é isto, guria? Sou sua mãe.” A menina responde:” Você sempre me deu liberdade para falar de qualquer coisa, estou esperando”.

Contrariada, a mãe responde: ” Estava com umas amigas pulando o carnaval e conheci um belo rapaz. Quando o vi meus olhos brilharam e percebi também brilho nos olhos dele. Não nos largamos durante os quatro dias e no quarto dia para nos despedirmos, transamos”. A jovem pergunta: “A transa foi boa? Há quanto tempo foi e onde você pulou este memorável carnaval?” Tensa, a mãe responde: “Sim, a transa foi ótima, aliás, não foi uma transa e sim um maravilhoso ato de amor”. Foi há 17 anos e estávamos em Pernambuco.

Silêncio total. A mãe, desconfortável com a conversa, olha para a guria de 16 anos que parece pensativa. Claudia percebe que a guria descobrira qual era a lembrança marcante e o motivo de seu nome ser Olinda.

Não dá para engolir.

Não dá para engolir.

 

Sei que estamos no início de 2017 e as pessoas ainda estão trocando felicitações. Aproveito a ocasião para desejar um ano repleto de realizações com muita saúde e  felicidade ao prezado leitor.  Mesmo em período de férias e festas tem coisas que quando nos vem à mente, não dá para aceitar, não desce na goela. Tem sapos que nos forçam a “engolir”, mas não descem. Ficam parados na garganta, por mais azeitados que estejam.

Um exemplo para ilustrar esta dieta indigesta é a reforma da Previdência. Estipularam a idade mínima para aposentadoria aos 65 anos e segundo alguns artigos há pessoas que precisarão trabalhar 49 anos para receber aposentadoria integral. Sim, tem a famosa idade de corte, 45 anos para as mulheres e 50 para os homens. Enquadro-me nesta situação, mas pelo que apreendi terei que pagar um pedágio de cinco anos a mais de trabalho. É frustrante ver, mais uma vez, o povo pagar a conta de “cagadas”, que não fez.

As “lideranças políticas” pintam, bordam e terceirizam a conta para o extrato mais pobre da população. Aqueles que pouco possuem pagarão a conta feita pelos poucos que muito possuem. Sim, porque a reforma da Previdência não atingirá aqueles que muito possuem. Eles não precisarão fazer sacrifícios. Os políticos continuaram  a  aposentar-se  com oito anos de trabalho, é mole? Continuaram com todos os benefícios de verbas adicionais, verbas de gabinetes, verbas disso e daquilo.

Formou-se uma casta no Brasil que está imune a trovoadas e vendavais. Sacrifício com eles não, terceirizam para o povo. No Judiciário estima-se que três de cada quatro juízes recebem mais que o teto estabelecido de R$ 33.763,00. Há inclusive magistrado que, ocasionalmente, recebe 500 ou 600 mil em um mês. E ainda  testemunhamos juízes pegos em delito serem punidos com aposentadoria compulsória, com salário integral. Vai você,  prezado leitor, cometer um delito, para ver se não te jogam atrás das grades?

Os militares estão inseridos nesta festa, digo, nesta casta. Não entram na reforma e continuam com o benefício da aposentadoria perpétua. A aposentadoria deles pode ser recebida indefinidamente por filhas e netas, desde que não casem. É óbvio que a beneficiária de pensão militar não casará no papel. Vai viver junto, mas não oficializa. Não é louca de perder a pensão.

Na casta inimputável  estão  os empresários e os donos de grandes fortunas, que por acaso também são empresários. A única preocupação deles é reduzir a parte que lhes cabe recolher, de seus assalariados, para a Previdência e impedir que alguma lei que tenha a pretensão de taxar as grandes fortunas seja aprovada. Só alegria.

O que é triste nisto tudo é ver o povo sem saber o que fazer  e sem ter para onde correr. Mas há trabalhadores que defendem a reforma. Acreditam no discurso que lhes chega via mídia e saem repetindo. Ainda mais triste é saber que o povo está desunido , quando deveria estar unido para lutar contra seus líderes. Sim, queiramos ou não são eles que estão liderando e (des)governando o país. Patética situação ter que lutar contra aqueles que foram eleitos para nos propiciar melhores condições de vida. Falo do Congresso que deveria discutir e aprovar leis para melhorar o cotidiano da nação. Na teoria, porque na prática querem é melhorar as condições de vida deles e dos grupos econômicos que representam, porque a maioria nem deputado é, é lobista.

Difícil engolir o discurso que a Previdência está quebrada porque as pessoas estão vivendo mais, que tem pouco contribuinte para muito beneficiário e etc… Precisa agregar neste discurso os recursos desviados para outras finalidades que não o pagamento de aposentadoria. Para ilustrar, cito o dinheiro, fortuna,  que foi utilizado para construir a Usina de Itaipu, a Transamazônica e as Usinas Nucleares de Angra. Por que esta fortuna não foi devolvida aos cofres da  Previdência? Falar do que foi roubado  é chover no molhado. Para citar um caso, lembram da Advogada Jorgina de Freitas que desviou mais de R$ 112.000.000,00? Certamente, não foi a única.

Triste, muito triste ver o país transformado em um país de coronéis, castas, e  pior é ver o povo classificado como uma casta de quinta categoria, um estorvo para o desenvolvimento do país.

 

Como piorar algo que está ruim.

 

Quando quiser arrumar para a cabeça, sua e dos outros, siga as recomendações deste texto. Não acredite em povo organizado e nem em suas próprias forças. Rechace a ideia que a união faz a força. Terceirize a solução de seus problemas. Acredite em salvadores da pátria, mesmo que estes sejam grandes grupos de comunicação. E que, evidentemente, tenham outros interesses que não são o seu bem-estar.

Kant, filósofo alemão, em seu texto O que é o esclarecimento? Nomeia de minoridade intelectual o comportamento de pessoas que ao invés chamar para si a condução de seu destino e lutar para melhorá-lo, terceirizam para outros. Por outros se podem entender o pastor, o padre, o imperador, o exército, judiciário e por aí vai… Mas sempre se pode considerar que Kant estava errado, né?

Mas voltando as instruções, digo ao texto, despreze seu senso crítico e acredite em tudo que vê e ouve. Principalmente se a fala vier da elite ou de porta-vozes dela. Admita tudo como verídico. Tudinho. Não dê ouvidos àqueles que dizem que os interesses da elite são contrários aos do trabalhador, isto no caso de você ser um trabalhador, obviamente.

Assista e leia diariamente os noticiários da grande mídia. Através das notícias, potencialize o ódio que tem das organizações de trabalhadores, sindicatos, associações e afins. Refute qualquer ideia de sindicato de trabalhadores, mesmo sabendo que os empresários também têm os seus sindicatos, acredito que saiba. Vista roupas nas cores verde e amarelo, de preferência camisetas da CBF. Participe de grandes manifestações contra uma Presidenta honesta, caso o leitor discorde e tenha provas contra a ex Presidenta é só enviar ao Judiciário, preferencialmente para a República de Curitiba. Faz tempo que procuram e não acham nada. Ah! Só participe das passeatas que forem transmitidas ao vivo, pela maior rede de TV do país, e que sejam interpretadas e orquestradas por esta TV.

No caso de algumas pessoas, que tenham um pensamento contrário ao seu, te dizerem que o movimento não é contra a corrupção e visam somente à tomada de poder através de um golpe, não creia. Talvez digam que o interesse é privatizar o pré-sal e outras empresas estatais, refute-os. Jamais acredite se disserem que está lutando contra seus próprios interesses e reforçando o poder da oligarquia, bobagem. E se acontecer de te dizerem que o pano de fundo é retirar direitos sociais e trabalhistas, dificultando ainda mais tua difícil vida,não acredite, gargalhe destas falas. Acredite com toda tua força que as pessoas que lutam e querem mais benefícios sociais e trabalhistas são comunistas, nunca duvide.

Bata panelas como sinal de protesto e para fazer bastante barulho. Bata com força, igual àqueles que recentemente aprenderam a bater panelas, que sempre estiveram fartas. Siga, aprecie e venere um enorme pato de borracha amarelo e, principalmente, jamais considere a fala de alguém que diga que quem vai pagar o pato é você.

A alegoria da caverna na atualidade.

 

 

Platão discorre sobre a Alegoria da Caverna no capítulo 7 de seu livro A República. O mito é amplamente conhecido e estudado. Mas é preciso dizer do que se trata, ao menos sucintamente. Diz que no interior de uma caverna há homens acorrentados e de costas para a saída. Impedidos de movimentar-se viam apenas as sombras que eram projetadas na parede, no lado interno. Uma fogueira, no lado externo, projetava para o interior, sombras de pessoas e animais que passavam na frente da caverna. Os prisioneiros acreditavam que as sombras dos objetos eram os próprios objetos, e não apenas sombras deles.

Muito bem. Percebe-se nos dias atuais que grande parte da população está vendo apenas sombras, que acreditam ser a realidade. Compram o discurso e propaganda de combate a corrupção como se isto fosse o real, e na verdade são apenas vultos. O povo precisa aprender a ler as entrelinhas, a discernir a motivação que embasa um discurso.

O discurso da moralidade não passa de névoa porque nem sombra é. Fundamentam a fala na moralidade, mas o objetivo era e é a tomada do poder. Cientes que não conseguiriam o poder através das urnas, vide 4 derrotas consecutivas, resolveram discursar o que o povo queria ouvir. E conseguiram. Corruptos discursando que acabariam com a corrupção. O povo acreditou.

O modus operandi que utilizam para construir um país ético nada tem de ético, ao contrário, eles atropelam a lei e o “réu” é condenado antes do julgamento, e o que é pior, sem provas. Sempre ouvi dizer que na ausência de provas o benefício deve ser dado ao “réu”. Mas não é o que acontece na república das bananas, digo, do Brasil. Basta elaborar um discurso lógico e adorná-lo com propaganda a exaustão, que a maior parte da população acredita. Acredita porque desconhece uma fala da filosofia cética que diz que é possível produzir um discurso forte e com capacidade de persuasão, a favor ou contra qualquer coisa. Dito isto, o leitor pode imaginar o valor de provas materiais e irrefutáveis em um julgamento. Igualmente pode imaginar o valor da declaração de uma ministra do STF que ao proferir seu voto, no julgamento do mensalão, disse que mesmo não tendo sido apresentado provas, ela votaria embasada na literatura jurídica.

Recentemente, anularam mais de 54 milhões e 500 mil votos sem uma prova sequer de que a Ex-Presidenta Dilma fosse culpada ou corrupta. As tais “pedaladas” também foram feitas por FHC, por Lula e por 17 governadores que estão exercendo seus mandatos, e não há nenhum questionamento das “pedaladas” destes. Parece que ao invés de construir um país ético, estamos construindo um país de cínicos, de sarcásticos indiferentes à legalidade, contanto que consigam seus objetivos. Esquecem que pau que bate em Chico também bate em Francisco.

Discursam querer levar o país para a modernidade, quando são a causa do atraso do país.  Falam querer distribuir as riquezas, quando na verdade querem é preservar seus privilégios. Seus atos os contradizem e fica explicito que o resultado de suas ações será maior concentração de renda. Representam o que tem de mais arcaico, mais retrógrado nos trópicos. A parcela dos brasileiros que aplaude e enxerga sombras, não consegue visualizar que o mais prejudicado é o povo, ou seja, eles mesmos. Aplaudem e ovacionam aqueles que vão lhes chicotear, aqueles que vão lhes retirar direitos. Vai entender este apego a corrente. Difícil. Será que é tão difícil para a sociedade enxergar e compreender que só vamos nos desenvolver enquanto nação através da inclusão dos excluídos? São milhões de pessoas. Número maior que a população de muitos países juntos. Milhões de consumidores que ficam a margem e a deriva por causa da ganância de alguns que acreditam serem donos do país.

É muito difícil entender que para construir uma sociedade ética é preciso respeitar as leis? Faz-se necessário que as leis sejam iguais para todos, e não só para um campo ideológico. Ganhar o “jogo” embasado em discurso tendencioso e muita propaganda é igual a ganhar uma partida de futebol com gol ilegítimo, roubado, ou seja, não se constrói uma nação ética valendo-se de artifícios antiéticos, ao contrário, apenas reforça-se a ideia de que vale tudo para impor uma visão de sociedade. Vale tudo para alcançar os seus objetivos, em outros termos, o comportamento corrupto é afirmado e legitimado.

“(…) tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se a alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo? (…)” (Platão, A República. Pág.228).

Na Alegoria da Caverna, Platão diz que se um dos prisioneiros conseguisse soltar-se das correntes e após adaptar-se com a iluminação externa iria ver os objetos tais como eles são. Acaso retornasse para contar a verdade aos demais que ficaram acorrentados, estes não acreditariam e tentariam matá-lo. Basta estabelecer uma analogia da citação acima com o momento atual, para perceber a veracidade da fala de Platão. Tudo se explicita. Como diz aquele ditado popular antigo do tempo que as mulheres se maquiavam com “pó de arroz”: “não é pó de arroz, mas está na cara”. Basta o prezado leitor olhar para a atualidade e ver trabalhadores lutando contra seus direitos. Acaso não é repetido à exaustão o bordão de que política não vale a pena, quando na verdade “veem” seus destinos decididos pelos políticos. Fazem isto não porque sejam burros, mas porque apenas veem sombras e acreditam ser o real. E quando aqueles que conseguem ler as entrelinhas lhes mostram o objeto real, eles não ficam furiosos? Não enchem o peito de raiva e saem semeando ódio? Quer arrumar um inimigo? Mostre para alguém que sua interpretação está errada.

Há muito tempo que uma parcela da sociedade alerta que o objetivo não era o combate a corrupção. Hoje isto está comprovado. É só olhar no atual governo, quantos ministros fichas sujas tem. É só observar que os partidos que estão no poder atualmente, DEM, PMDB e PSDB, foram classificados em primeiro, segundo e terceiro lugar no ranking da corrupção divulgado pelo TSE em 2016. É mole? Ranking de corrupção!  É caro leitor, aqueles que pregam discurso ético são os que lideram o ranking.  E então emerge a pergunta: está ou não grande parcela da população a ver sombras e a acreditar que aquilo que vê são objetos reais?

Também se alertou fartamente que o objetivo em relação à Petrobrás não era saná-la e sim vender o pré-sal. Havia um projeto em que 75% dos recursos oriundos do pré-sal iriam para a educação e 25% à área da saúde. Seria o “pulo do gato” para que nossa sociedade tivesse mais qualidade de vida. Precisa dizer de que lado a parcela da sociedade que só vê sombras, e que seria beneficiada, ficou? Agora que estão a testemunhar a venda do pré-sal para as grandes petrolíferas mundiais, talvez percebam que o alerta era verídico.

Estamos diante de um embuste em que o saque da hora é a reforma do ensino público por meia dúzia de burocratas. Reforma feita sem discussão alguma com a sociedade e os educadores. Resolveram retirar das grades Filosofia, Sociologia e outras matérias do âmbito das Ciências Humanas. Engraçado, estão retirando a disciplina que ensina a pensar metodicamente, a ter uma visão crítica da sociedade e também a disciplina que mostra como a sociedade é constituída, como é formada e quais são suas tensões. Fazem isto para colocar mais matérias técnicas, ou seja, querem mais robôs para apertar parafusos, vide Tempos Modernos de Chaplin, e menos cidadãos pensantes capazes de construir uma nação livre e independente. Advinha de que lado aqueles que somente veem sombras vão se postar? Uma bala de caramelo para quem acertar. Em suma, a Alegoria da Caverna está atualíssima nos trópicos, 2500 anos depois de ser escrita.

Terra de coronés.

 

 

Quem imagina que coroné é coisa do passado, engana-se.  Eles estão por aí. Nas diversas atividades sociais. E o pior é que estão mandando, e muito.

Nos rincões afastados do país talvez ainda usem aqueles trajes rurais típicos com o fique quieto, revólver, na cintura. Donos da vida e da morte, do destino e da vontade das pessoas. São magistralmente descritos por Jorge Amado em seus romances.

Percebe-se que mais de um século depois da proclamação da república eles proliferaram e atuam em diversos segmentos da sociedade. Estão no setor de comunicações, representados por seis ou sete famílias que controlam a imprensa de um país de dimensões continentais e 204 milhões de gados, digo, pessoas. Embora chamem os brasileiros de telespectadores ou leitores, na verdade os tratam como gados, dirigindo seus pensamentos e os direcionando igual aos vaqueiros quando conduzem a boiada.

São facilmente observados no Judiciário. Onipotentes e intocáveis. Podem tudo e ninguém ou nada pode contra eles. Quando pegos em delitos ou cometendo erros absurdos sofrem uma punição, que é a aposentaria com salário integral e todas as benesses da ativa. Há coronés deste setor que desrespeitam leis. Transformam-se em justiceiros e nada lhes acontece. Seletivos e ágeis quando lhes convém. O contrário também é verdadeiro porque são lentos e vagarosos em alguns processos idênticos àqueles em que aplicam celeridade.

Também estão situados na esfera econômica. Capitalistas tardios. Gostam de ganhar muito e pagar pouco. Há os que preferem o trabalho escravo. Inclusive tem senador acusado de manter pessoas trabalhando em regime de escravidão em suas fazendas. Pregam a concorrência para o povo na busca de emprego. Eles preferem os conchavos e risco zero. Alguns continuam no setor rural, hoje nomeado agro negócio.  Muitos além de atuar nesta esfera, igualmente, estão na indústria e no setor de serviços. A mentalidade primitiva e o modus operandi continuam os mesmos. Podem tudo e o povo só pode aquilo que permitem.

É inegável que a área que mais gostam é a política. São vistos nas esferas municipais, estaduais e federais. Enquanto muitas pessoas batem no peito e dizem não gostar de política, e se dizem imparciais embora sempre neguem um lado, os coronés adoram política. Gostam tanto que para eles não há diferença entre o estado e suas famílias, suas terras e empresas. É tudo deles. Está tudo dominado, pensam. Acaso o leitor observe os sobrenomes dos políticos irá perceber que o coronelato é hereditário. Lembrou as capitânias hereditárias? Parece que elas se modernizaram. Engana-se quem pensar que coroné é exclusividade do Nordeste. Estão em todo o país, no Sul, Sudeste e Centro Oeste que são as regiões mais ricas da nação.

No momento não há melhor exemplo para ilustrar a presença dos coronés, em nosso cotidiano, que Temer e seu ministério.

A ideia do estado mínimo.

 

O leitor já ouviu políticos e economistas a pregar a ideia do estado mínimo? Creio que responderá sim. Neste texto vamos analisar, basicamente, o que significa tal proposição. O alicerce da doutrina é que o estado, no caso o governo, deve interferir o mínimo possível na economia do país. A economia, toda ela, deve ficar ao encargo da iniciativa privada e sua regulação ao encargo do onipotente mercado.

 

A ideia é maravilhosa, para os grandes capitalistas. São eles que possuem os meios de produção e o capital para investir. Não causa surpresa que preguem a ausência, digo, participação mínima do estado.

O governo, responsável pela administração do estado, não deve participar da economia, ou seja, não deve existir empresa pública. Antigamente, os adeptos do estado mínimo concediam que os governos cuidassem da saúde, da educação e segurança. Hoje, nem isso. Veja que pregam a privatização da saúde através dos planos privados. Isto significa que quem tem dinheiro tem acesso a saúde, quem não tem fica de fora. Igualmente pregam a privatização de universidades e até do ensino secundário, o antigo segundo grau. Serviços de segurança privada proliferam mais que ratos em lixões.

Diz a doutrina que imposto deve ser único ou mínimo, se preferirem. Observe que são os impostos que propiciam ao estado o fornecimento de serviços básicos e indispensáveis à população. Direito trabalhista, somente o indispensável. Preferencialmente que não exista nenhum. Preços dos produtos e serviços, e, igualmente, os salários devem ser resultado das forças do mercado, conhecidas como oferta e procura. Então tá! Não dizem que estas forças de mercado são facilmente manipuladas através de um acordo da quantidade ofertada e demandada. Isto pode ser acertado em um churrasco. Acaso não queiram participar da festa, também podem acordar estas regras através de um chat de bate papo de alguma mídia social ou através de email. Há outras facilidades de comunicação, mas não vem ao caso.

Entretanto, há ocasiões em que admitem uma forte participação do estado. Por exemplo, afirmam que o estado deve construir rodovias, ferrovias, aeroportos, portos, fontes de energia barata e outros. Os itens acima elencados devem ser construídos pelo estado para facilitar e dinamizar a economia, deles. Ah! Eles também dizem que o estado deve lhes fornecer isenções tributárias e subsídios, muitos subsídios.

Um olhar cândido verá tudo muito bonito, lógico. Agora se tirarmos as escamas dos olhos e lançarmos um olhar crítico a esta doutrina, veremos que a ideia do estado mínimo só vale para o povo. As proposições deles somente trazem ônus para a população, porque para os grandes capitalistas é somente bônus. Só alegria, para eles. Até nas situações em que admitem a participação do estado na economia, a equação ônus para o povo e bônus para eles, continua inalterada.

Adotar a ideia do estado mínimo é algo semelhante a soltar raposas em um galinheiro ou colocar lobos para cuidar de ovelhas. Acaso o leitor se dê ao trabalho de analisar criticamente a doutrina por eles propagada, verá que o estado é o máximo, para eles. Destas ideias pode-se ver que o estado é o salvador da pátria, deles. Não esqueça que capital não tem pátria.

Engana-se quem pensar que sou contra a iniciativa privada. Acerta aquele que pensar que sou contra o estado mínimo. O estado deve ser o agente regulador dos conflitos, que independente das vontades, sempre existirá nas sociedades.